Um dia desses, em uma pequena moradia
de barro e madeira dos confins brasileiros. Raimundo Teixeira decidiu dormir
cedo, mesmo ainda tendo castanhas para descascar. Uma chuva torrencial caía
sobre a pequena casa que ele havia feito por conta própria, uma casa forte e
resistente como seu pai consciência,
estava cansado. Pensou ter ouvido um guinchar de motor mas devia ser o sono
chegando. Ficou exausto do seu trabalho de sobrevivência, trabalho perpétuo que
passou de seus pais, Michel e Maria, para ele. Suas pálpebras pesavam e ele
sentia sua mente ganhando cada vez mais leveza. Mas então algo atrapalhou o seu
sono.
Da cama ele viu dois olhos amarelos o
vigiando do lado de fora da janela. De início ele não se assustou, só podia ter
se tornado um porre de sono delirando. Ele não tinha muitos vizinhos, muito
menos amigos. Seu único companheiro era o próprio mato, que lhe fornecia
alimento e sustento. Vezes por mês Raimundo deixava oferendas no mato para
entidades que sua avó lhe ensinara que existiam por lá, e que precisavam ser
respeitadas. Em um súbito relampejo a cabeça de quem o estava observando se
encheu de fogo. Aquela presença quente iluminou seu lar, era assim que ele
imaginava como seria morar no sol. O fogo envolveu e engoliu sua casa, em seguida
abraçou seu corpo. Aquele elemento se espalhava com tamanha intensidade que por
segundos Raimundo pensou ter ouvido o fogo assobiar.
Ele se viu arrebatado para um lugar
inóspito em um futuro distante, diferente da floresta tropical cheia de vida que
conhecia. Onde estava agora, seja lá em qual parte do mundo fosse e quando,
emanava morte. Ao invés de uma natureza verde havia uma grande floresta de
concreto. No lugar dos igarapés, rios de asfalto. Do céu não vinha chuva, notas
de dinheiro pairavam vindas de cima. Havia fumaça pelo ar. Do seu lado uma anã
de pele verde, cabelo ruivo e olhos amarelos se pronunciou quebrando o silêncio
mórbido e dizendo:
- É terrível, não? Isso é o que o mundo
mais valoriza hoje.
Raimundo ainda sem entender aquela
situação indagou:
- Quem é você?
Ela respondeu com um sorriso melancólico:
- Uma amiga da terra de tempos antes dela
ter sido invadida pela ganância. E você? – Ela virou o rosto para observar as
expressões de transtorno dele.
- Sou Raimundo Teixeira. Se eu for
ficar aqui preciso saber, o que as pessoas comem nesse mundo ideal? Não vejo
nenhuma jaca... ou manga...
A anã o interrompeu antes de ele
continuar a lista infindável de frutas:
- Dinheiro.
Ele coçou a cabeça por um instante
antes de dizer:
- Não dá pra comer dinheiro!
- Exatamente. – A anã de cabelos ruivos
se virou revelando seus pés invertidos e caminhou na direção oposta. – Venha,
não vou lhe deixar aqui.
Ele a seguiu, e os dois andaram em
direção ao sol avermelhado para nunca mais voltar.
Cláudia acabara de por sua filha para
dormir quando se jogou na rede do quarto para assistir televisão. A comédia
romântica que ela tanto queria assistir iria passar em alguns minutos. Enquanto
isso colocou em um canal de jornalismo. Estavam noticiando um grande incêndio
na floresta causado pela explosão de um trator em uma tentativa ilegal de
desmatamento. A presepada matou um homem que morava sozinho próximo ao
ocorrido. Cláudia não mudou a feição apática, assassinatos e coisas muito
piores passavam todo dia naquela TV, mas ela não escapou de pronunciar:
- Coitado...
Mas o seu filme começou, e ela mudou
rapidamente de canal.
Lucas Nogueira Laurindo
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